ENTRE TÚMULOS E VÍNCULOS

(Re) Construindo e iluminando memórias em um ritual de tributo aos mortos em Salinópolis – Pará – Amazônia


Marcus Vinícius Nascimento Negrão
Universidade Federal do Pelota


Em Salinópolis, interior do Pará, o Dia de Finados é celebrado com o ritual de “Iluminação dos Mortos”, um tributo prestado aos entes falecidos através do acendimento de velas e proferimento de preces na noite do dia 02 de novembro. Durante trabalho de campo realizado em 2012 e 2013 para minha pesquisa de mestrado, identifiquei que, embora receba a designação englobante de “Iluminação dos Mortos”, este ritual é composto por três importantes etapas que o estruturam: a arrumação dos túmulos, a iluminação dos mortos e a confraternização entre os vivos.

Em Salinópolis, interior do Pará, o Dia de Finados é celebrado com o ritual de “Iluminação dos Mortos”, um tributo prestado aos entes falecidos através do acendimento de velas e proferimento de preces na noite do dia 02 de novembro. Durante trabalho de campo realizado em 2012 e 2013 para minha pesquisa de mestrado, identifiquei que, embora receba a designação englobante de “Iluminação dos Mortos”, este ritual é composto por três importantes etapas que o estruturam: a arrumação dos túmulos, a iluminação dos mortos e a confraternização entre os vivos.

Cada etapa ritual possui uma característica que a define. A arrumação dos túmulos, realizada geralmente durante a semana que precede o Dia de Finados, abrange todas as atividades de limpeza, lavagem, construção, reconstrução, pintura e decoração de sepulturas. A iluminação dos mortos, momento culminante do ritual, consiste no acendimento de velas e proferimento de preces em memória dos entes falecidos. Apesar de, em alguns casos bem específicos, também ocorrer durante o dia, a iluminação dos mortos é uma etapa ritual pensada para ocorrer durante a noite do Dia dos Finados, momento ápice em que a luz das velas desafia a escuridão do cemitério ou, simbolicamente, em que o clarão da vida parece desafiar o breu da morte. Por fim, após a iluminação, segue-se a confraternização entre os vivos, última etapa a partir da qual a comunidade local se dirige ao lado exterior do cemitério para desfrutar do congraçamento festivo entre os vivos. Trata-se de uma etapa ritual marcada pelo diálogo, pelas expressões de afeto, pelo consumo de bebidas e comidas típicas da culinária paraense vendidas no “arraial” montado na rua onde se localiza o cemitério.

As fotos contidas neste ensaio enfatizam a arrumação e iluminação dos túmulos. Capturadas no Cemitério do Bonfim, lugar onde ocorre o ritual, as imagens destacam o processo de preparação dos túmulos e do próprio cemitério para receberem as homenagens destinadas aos mortos. As fotografias ressaltam ainda o processo de iluminação dos mortos, no qual a luz das velas clarifica os rostos que expressam afetos no escuro da noite. Assim, ao construírem, reconstruírem ou iluminarem os túmulos, essas pessoas constroem, reconstroem e iluminam memórias. A reverência aos mortos, portanto, coloca sujeitos em relação, abrigando no espaço cemiterial velhos, crianças, homens, mulheres, vivos e mortos, que evidenciam vínculos afetivos e relações de parentesco.

1. Em Salinópolis, é comum que crianças e adultos estejam envolvidos na arrumaçãodos túmulos. Enquanto auxiliam na arrumação, meninos se encontram e se divertem no cemitério.
2. Seu Sebastião (78 anos) e Seu Paulo (71 anos) reconstroem sepulturas de familiares.
3. Elizabete (36 anos) arruma túmulo de sua avó Dona Estefânia.
4. Seu Luciano (75 anos) adorna sepultura com flores.
5. Homem substitui cruz em túmulo de familiares.
6. Rosineide (mãe, 34 anos), Raíssa (filha, 09 anos) e Franciele (amiga, 12 anos) arrumam sepultura de Manoel, irmão mais velho que Rosineide não chegou a conhecer.
7. Ao cair da tarde, idosos e crianças são os primeiros que, geralmente, iniciam a iluminação dos mortos, que se estende até cerca de meia-noite. Nesta foto, menino ilumina parentes falecidos.
8. Em silêncio, Ana (mãe) e Márcio (filho) iluminam familiares.
9. Sob a escuridão da noite, moradores de Salinópolis iluminam túmulos e proferem preces em favor dos entes falecidos.
10. A luz das velas ilumina os afetos expressos nos rostos das irmãs Léa (47 anos) e Raimunda (40 anos) em sepultura de seus familiares.