NO DIA DE FESTA DELE…

Culto doméstico a Cosme e Damião em Cachoeira / Bahia


Luisa Mahin Nascimento
Centro Estadual de Educação Profissional da Bahia



Imagem: Altar doméstico de Cosme e Damião em Cachoeira/Bahia.

O culto doméstico aos santos Cosme e Damião na Bahia, cidade de Cachoeira especificamente, é o objeto da pesquisa que aqui trago à reflexão. Desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRB, a pesquisa encontra-se em fase de finalização, sendo pautada numa abordagem etnográfica.

Esta investigação parte da hipótese que o culto aos santos reconhecidamente gêmeos, que possui um caráter polissêmico, sendo uma manifestação marcada pela presença do catolicismo e do candomblé[1], tem se perpetuado muito mais para manter viva uma prática dos antepassados, sendo esta uma herança que os descendentes têm se dedicado ao compromisso de perpetuá-la, dando-lhe sentidos que renovam a fé a cada geração.

Além do legado dos antepassados, em dadas situações uma pessoa se vê na condição de iniciar a devoção aos santos a partir de uma necessidade que a motiva a fazer uma promessa e (re)constroem ou (re)inventam seu culto através de lembranças do fazer de seus pais, avós, vizinho, representante religioso. De memórias e reinvenções, portanto, velhos hábitos se mantêm e tecem novas formas de saberes e fazeres que alimentam a fé, reafirmando-a viva e dinâmica.

Manifestação plural, há uma heterogeneidade de revelação do Cosme e Damião, que por vezes é católico, de reza e vela; noutras católico que come caruru (neste o santo católico come caruru); o que a devota despacha[2] a comida antes na rua para os “escravos” para depois oferendar aos santos e às crianças sob rezas católicas; em certa situação é da umbanda e partilha o culto com os Crispins, Crispinianos e outras entidades “crianças”; dentre outros. Este, portanto, é um culto diverso, carregado de muitos signos e sentidos, ora partilhados, ora contraditórios. Como um rizoma, numa clara relação com o princípio da conexão e heterogeneidade de Deleuze e Guattari (1995), onde “qualquer ponto de um rizoma pode ser conectado a qualquer outro”, as práticas individuais se interconectam, não havendo uma forma definida de cultuar os gêmeos. Pode-se afirmar que há cultos, conexos e heterogêneos.

O objetivo do presente trabalho tem sido investigar a dinâmica antropológica e sociocultural do culto doméstico a Cosme e Damião, compreendendo os mecanismos que permitem sua permanência, incluindo as ressignificações, e seus rituais simbólicos na cidade de Cachoeira, Recôncavo da Bahia. Especificamente, busca-se explorar a diversidade de experiências do culto num universo polissêmico, complexo e multifacetado.

A pesquisa está sendo desenvolvida a partir de uma revisão bibliográfica minuciosa, uma investigação de campo de natureza antropológica, de base etnográfica, com entrevistas e observação participante. Foram desenvolvidas entrevistas abertas com dez devotos ou parentes de realizadores de festa aos gêmeos e pessoas de notório saber sobre o assunto e observação participante e sistemática em cinco cultos domésticos nos anos de 2014 e 2015 na cidade de Cachoeira, entre zona urbana e rural.

Para chegar às pessoas entrevistadas e aos cultos domésticos observados me utilizei de indicações de pessoas da cidade e da própria rede de devotos aos gêmeos. Os próprios sujeitos de fé e devoção se reconhecem e dialogam entre si. O primeiro devoto indicado para entrevista e observação faz uma grande festa pública e é um notável em festa de Cosme e Damião no cenário local. Na sua casa, durante o corte dos quiabos para a festa que se daria na noite, estavam duas devotas, tendo sido ambas entrevistadas. Uma outra devota me convidou para seu caruru e aproveitando a oportunidade lhe abordei para compor o universo da pesquisa.

Com percursos diferenciados, tendo os caminhos se encontrado através dessa rede de informantes, as experiências apresentadas neste trabalho foram selecionadas entre um universo muito maior. Foram escolhidas as experiências que ilustram e revelam a polissemia e diversidade do culto.

A experiência etnográfica foi e tem sido um momento peculiar. O estar lá com a pretensão científica, buscando apreender e interpretar a manifestação como uma “estranha”, me propiciou perceber singularidades, sutilezas, detalhes até então imperceptíveis para o olhar de quem é, por outro lado, “nativa”, tendo vivido histórias marcantes de culto aos santos gêmeos desde a infância. Estranhar o familiar faz parte crucial do meu exercício etnográfico.

Vale salientar que o “estranhar o familiar” não foi inicialmente uma experiência tranquila e harmônica. Desconstruir a mim mesma, no exercício de tentar superar os paradigmas culturais estabelecidos socialmente, entranhados na minha visão e capacidade de ler o mundo, foi um exercício doloroso. Doloroso no sentido do conflito interno e pessoal. Me vi carregada de preconceitos (no sentido de conceitos preconcebidos). E depois me vi limitada.

Figura 1: Quadro: Diversidade de influências e manifestações do culto doméstico a Cosme e Damião em Cachoeira / Bahia. Fonte: Autoria própria.

Percebi que para compreender o outro, mesmo sendo este outro tão próximo de mim, eu precisava de um repertório (teórico e empírico) ampliado, ressignificado, que me munisse de competência para enxergar para além do que meus olhos e visão de mundo fossem capazes. Além do repertório que se iniciou numa busca para a amplitude e ressignificação, comecei a me despir de tudo que era preconcebido, preestabelecido, pré-formatado dentro de uma caixinha de tendências e “verdades”.

Despida, com sentidos e visão aberta, me entreguei a uma nova forma de estar e me relacionar com a pesquisa. Ao me permitir a este exercício da nudez, do desapego às velhas compreensões e formas de apreender o mundo, as coisas ganharam novos sentidos, agora mais condizentes com o universo que se revelava e que eu até então não estava preparada para decodificá-lo. Achava que tudo era muito desconexo, contraditório, até perceber que as desconexões e contradições estavam em minha incompetência de me transpor para o lugar do outro. Exercício este que fez toda a diferença e que só aprendi caminhando.

A dor inicial do estranhamento se tornou uma sensação leve e prazerosa do me permitir em estado de aprendiz. Parafraseando Elisa Lucinda em seu poema “O amor de Dudu nas Águas”, “deixei no mar os velhos adereços, a velha cristaleira, os velhos vícios, as caducas mágoas”. Se iniciou um processo de maturidade, olhar atento, desprendimento de mim mesma e mente aberta.

Deparei-me com o que Geertz fala sobre o trabalho etnográfico:

O que o etnógrafo enfrenta, de fato […] é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estranhas, irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro apreender e depois apresentar. […] Fazer a etnografia é como tentar ler (no sentido de “construir uma leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado.

GEERTZ, 1978, pg. 7

Feito uma artesã, me debruço aos fios da “teia de significados” que bordam o presente estudo; significados estes que os homens dão às suas ações e a si mesmos (GEERTZ, 1978). Assim, na etnografia, mais que registrar os fatos, me dedico a interpretar e buscar os significados contidos nos atos, rituais. Aqui, cada personagem que fala em entrevista e devoção é um universo carregado de sentidos. Cada narrativa revela uma manifestação própria, como que quadros individuais em cena conectados disformemente.

Os devotos possuem muito orgulho e disposição para falar de sua fé, como que se revelar sua experiência de dedicação aos santos fosse uma prova de amor, um testemunho de cumplicidade / proximidade e bênçãos. Há relatos de brigas e cobranças com os santos, numa relação de intimidade e certeza que eles andam presentes na vida cotidiana.

Uma devota, por exemplo, narra que teve algumas “barrigas de gêmeos” [3] e por isso passou a cultuar Cosme e Damião há mais de 50 anos. Ela não tinha casa própria e daí pediu para eles lhe dar uma casa. Eles deram! Depois a casa ficou pequena para a festa deles e ela lhes pediu para conseguir fazer um espaço anexo para a realização dos festejos, o qual também foi concedido. Depois do anexo ela pediu para comprar um freezer para guardar os frangos da festa. Pedido também realizado! A relação por ela narrada é de familiaridade, presença cotidiana dos santos em sua rotina, brigas e cobranças por pedidos não respondidos e/ou castigos dados pelos santos por ela não ter cumprido com algum acordo ou promessa. Uma relação íntima de troca e reciprocidade.

A devoção, no geral, possui um enredo fantástico. As narrativas começam com alguma demanda que precisou de um milagre, uma intervenção divina, uma resposta que transpõe o plano físico, pairando o metafísico.

Nas histórias e memórias orais a seleção do que é falado se estabelece numa preocupação em deixar claro as afiliações religiosas e sociais. Das pessoas católicas, por exemplo, há a afirmação recorrente de que o culto e caruru não tem nada a ver com oferenda aos santos. Uma devota, por exemplo, a todo o tempo dizia no momento da entrevista que o caruru por ela oferecido era apenas uma festa, que o “santo não comia”, que na sua celebração não havia “nada de colocar comida no pé do santo”.

Para as pessoas do candomblé e umbanda, por outro lado, o santo come e isso não é problema em evidenciar. O problema aqui é em dizer como se faz, sendo restrito para alguns o momento da oferenda aos santos no quarto específico para tal. O segredo no culto se manifesta como uma metáfora, não sendo necessariamente proibido revelar o que é feito. Muitas vezes se processa como resguardo ou cuidado com o ato, sendo segredo o sagrado, evitando uma exposição aleatória. Portanto, os atos, rituais, falas, invocações nos momentos de oferenda da comida e da festa são geralmente preservados do olhar público, sendo restritos ao devoto, sua família e/ou pessoa religiosa de confiança.

No processo se revelaram pontos relevantes a serem explorados na pesquisa, dentre o contexto histórico-social da cidade de Cachoeira que propiciou a manifestação deste culto tão plural e polissêmico; a compreensão das motivações para fazer o culto, sendo uma assentada numa obrigatoriedade social ou moral do indivíduo, tal ter que fazê-lo por acreditar que nascer no mês ou dia do santo seja uma condicionante ou porque herdou da família e outra numa perspectiva da promessa, do dar, receber e retribuir a partir de um pedido de bênção; e, por fim, analisar a antropologia da comida, levando a explorar o processo de feitura e ritual do caruru, comida que alimenta os santos, crianças e serve de banquete para o coletivo.

Na trajetória chego à constatação que não há o Cosme e Damião; não há os Ibejis; não há o ritual do caruru sob regras e preceitos determinados para o culto aos gêmeos. As manifestações são diversas, o culto um emaranhado de muitas influências, o ritual se reinventa e se remodela de múltiplas formas para adequar-se à realidade de cada contexto, de cada devoto. Tudo se move por uma fé viva acompanhada pelo que se apresentam elementos fundamentais: o caruru e as crianças.

O caruru no culto a Cosme e Damião participa numa presença de grande importância. Com graus variados de compreensão do seu sentido e relação no rito por quem o oferece, há uma concordância partilhada que festa de Cosme e Damião tem que ter a comida. Nas celebrações da Igreja Católica Brasileira de Cachoeira, relata o Padre Roque, responsável pela paróquia, não há a oferenda da iguaria, mas todos os anos os juízes e/ou a comunidade se dedicam a finalizar a festa com a mesma, numa celebração comunitária. O caruru não faz parte da igreja, mas faz parte das pessoas que a integra, afinal, “no dia da festa dele, São Cosme quer caruru”, conforme entoa uma de suas cantigas da sabedoria popular.

As crianças participam como que numa personificação dos santos gêmeos. O imaginário coletivo consente que “São Cosme é menino”. “São Cosme e São Damião são crianças sabidas, que tanto dá quanto toma”, diz Dona Ivone, uma devota entrevistada.

Sem pretensão de esgotamento do assunto e ciente que o que está posto é apenas uma centelha de um universo extraordinário, este trabalho é fruto do me permitir sensibilidade, emoção, razão; do experimentar sair da cena para ver de longe e enxergar de perto; de um trabalho artesanal, tecido de memórias, descobertas, observações, participações, construções, desconstruções, idas e vindas, disciplina, continuidades.

Referências bibliográficas

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[1] O culto a Cosme e Damião na Bahia é um momento singular da cultura local. Caracterizado em seu processo histórico pela presença de reza, comida, samba e devoção, esta manifestação religiosa e popular é celebrada anualmente em setembro em algumas regiões do território brasileiro, assumindo, no entanto, feições de cunho africano peculiares no Recôncavo da Bahia, dentre as quais reverência e ritual religioso (velado e em âmbito doméstico) às entidades relacionadas no candomblé (Ibejis na nação jêje e nagô, Vunji na nação angola) e oferenda de caruru aos santos, o que para alguns pode representar o “sacrifício, o ebó, como a forma essencial da sua comunicação com os orixás” (LIMA, 2005). Com a oferenda do caruru, assim como o fez Iansã em agradecimento aos deuses pelo renascimento de seu filho gêmeo, Ibeji, que havia falecido com uma praga que assolou em seu reino de Oyó (conforme relata um de seus mitos) e na data de decapitação dos gêmeos Cosme e Damião na Europa, 27 de setembro, os devotos realizam uma celebração que une ritualísticas católica e africana. 

[2] Pagamento antecipado do favor que se espera de Exu, que levará o recado a determinado orixá. No caso do despacho aos pagãos e/ou escravos de Cosme e Damião, esses comem a comida do santo, a ver: caruru, farofa de azeite, arroz branco, dentre outras iguarias que compõem a comida do santo.

[3] Expressão utilizada para se referir à gestação de gêmeos.