ESPAÇO E TRABALHO NA FEIRA DA 25 DE SETEMBRO EM BELÉM

Introdução a uma etnografia das relações econômicas



José Maria Ferreira Costa Júnior
Universidade Federal do Pará


Figura 1: Visão panorâmica da Feira da 25 de Setembro

I – Introdução

As feiras livres estão presentes no cenário local desde a fundação de Belém no Século XVII como demonstrou MEDEIROS (2010) ao relacionar a ocupação e configuração do território à formação desses espaços de trabalho e circulação de mercadorias. Informações da Secretaria Municipal de Economia de Belém (SECON) de 2010, que apontam o funcionamento legalizado de trinta e quatro feiras na cidade, com 4.984 permissionários[1], indicam a importância contemporânea dessa instituição para a cidade, não apenas como lugares de compra e venda de bens de primeira necessidade ou produtos regionais, mas também, como ambientes de intensas relações sociais produtores de identidades, alteridades e sociabilidades (RODRIGUES, et ali. 2014).

Nas últimas décadas, as pesquisas e publicações sobre feiras livres vêm ganhando espaço no campo das ciências sociais no Pará[2], com abordagens que privilegiam os processos de formação identitária, simbolismos, rituais, linguagens, produção de sociabilidades e diferentes práticas sociais. É nesse contexto que a pesquisa que desenvolvo no Mestrado em Sociologia e Antropologia do PPGSA/UFPA está inserida. Em meu trabalho busco compreender alguns mecanismos de crédito informal estabelecido entre diferentes atores da feira da 25 de Setembro em Belém. Porém, para trabalhar essa problemática julgo necessário contextualizar outros aspectos das relações econômicas na feira, assim, neste texto apresento um panorama de sua organização espacial e discuto alguns elementos das relações de trabalho observados no survey realizado com os feirantes[3].

II – A organização espacial da feira da 25 de Setembro

A feira da 25 de Setembro[4] ocupa o canteiro central da Av. Rômulo Maiorana entre as travessas Jutaí e Antonio Baena[5], nos bairros de São Brás. Sua organização interna obedece a duas classificações distintas: Áreas e Setores.

A divisão por Áreas se dá em razão da localização: a Área I vai da Trav. Jutaí à Das Mercês, enquanto a Área II se estende desta última até a Antonio Baena. A figura I, na primeira página, apresenta uma visão panorâmica da feira.

Sua estrutura física foi reformada entre 2003 e 2007 com a introdução do concreto armado como padrão construtivo e a uniformização de seus equipamentos, que são encontrados em dois tipos: Box (374) e Lojas (48), distinguidos pela altura das paredes e cobertura das últimas. A figura 2 apresenta a fachada da feira após a reforma.

Figura 2: Fachada da feira da 25 de Setembro

As duas Áreas da feira estão subdivididas em setores definidos de acordo com o tipo de mercadoria ou serviço. O quadro 1 apresenta os setores em cada Área:

As informações demográficas atuais da feira da 25 de Setembro apontam para estabilidade no número de permissionários quando comparados com aqueles publicados em 2010 pela SECON. Atualmente trabalham ali 320 pessoas, uma a menos do total encontrado há cinco anos. Na pesquisa de campo observei o predomínio de feirantes com mais de dez anos na feira, como apresento na Tabela 1.

III. Alguns elementos acerca da organização do trabalho na feira da 25 de Setembro

Considero que práticas econômicas não se limitam a relações comerciais, dessa forma, devemos instrumentalizar o olhar para observar as relações de trabalho que estão presentes na feira. Ao problematizar essa questão devemos buscar compreender como uma pessoa se torna feirante? Com quem aprende as habilidades necessárias para esse trabalho? Como entrou na feira? É diante dessas perguntas que a importância das relações de parentesco, do trabalho compartilhado e da reciprocidade é evidenciada nas relações estabelecidas da feira.

Observei, na amostra de 43 feirantes dessa feira, que o aprendizado e a reprodução dos saberes e habilidades do trabalho ocorrem, principalmente, entre parentes, tanto para homens como para mulheres, como pode ser observado na Tabela 2.


Essa forma de socialização das aptidões apresenta como desdobramento o trabalho compartilhado, onde cada sujeito atende com suas habilidades as necessidades de seus pares, de forma recíproca (GRAEBER, 2010). Essa observação não é fortuita, pois, os vínculos que ligam essas relações não são governados pela lógica das relações laborais formais, mas dependem de reconhecimentos e hierarquia entre as pessoas. É principalmente no âmbito das relações de parentesco e vizinhança que circulam as permissões de uso do equipamento na feira, os feirantes transmitem entre seus pares mais próximos, além de habilidades e conhecimentos, a relação institucional com o poder público que autoriza o uso do espaço. Dessa forma, a tabela 3  fundamenta esse argumento, pois aponta que a maioria dos feirantes entrevistados trabalha com parentes ou amigos.

A quantidade de equipamentos que cada feirante ocupa também é uma informação reveladora quando associada à quantidade de pessoas que trabalha com cada permissionário. A partir da tabela 4 na página seguinte é possível observar a baixa concentração de equipamentos por permissionários, o que possibilita a multiplicação de feirantes.

A correlação entre esses dados nos permite entrever uma forma particular de organização do trabalho na feira constituída de múltiplas interações em diferentes contextos que estão para além dos limites da economia em sentido estrito.

Referências bibliográficas

BELÉM. Decreto Municipal Nº 26.579 de 14 de Abril de 1994.

GRAEBER, David. Toward an Anthropological Theory of Value: The false coin of our own dreams. New York: Palgrave Macmillan. 2001

_____. On the Moral Grounds of Economic Relations: A Maussian Approach. Open Anthropology Cooperative Press, Working Papers Series #6.

LEITÃO, Wilma (org.) Ver-o-Peso: estudos antropológicos no Mercado de Belém. Belém: NAEA, 2010.

MEDEIROS, Jorge. As feiras livres em Belém (PA). Belém. Dissertação de Mestrado, PPGGEO-UFPA, 2010.

RAIOL, Eloi. Feira da 25 – Belém. Fotografia. Belém: http://eloiraiolfotografando.blogspot.com.br/; acessado em 07/10/2015.

RODRIGUES, Carmem et ali. Mercados populares em Belém: Produção de sociabilidades e identidades em espaço urbano. Belém: NAEA, 2014.

SOUSA, Rogério; RODRIGUES, Carmem. Sociabilidades, práticas e identidades na feira da 25 de setembro. In: RODRIGUES, Carmem, et. ali. Mercados populares em Belém: Produção de sociabilidades e identidades em espaço urbano. Belém: NAEA, 2014, (pags. 123 – 144


[1] Permissionário é a classificação com a qual a Prefeitura Municipal de Belém designa os indivíduos que recebem a autorização para explorar comercialmente de um a três equipamentos nas feiras administrados pelo poder público municipal, conforme Decreto Municipal Nº 26580/1994

[2] As pesquisas “Ver-o-Peso, o cheiro, o gosto, a cor e o som: o mercado de Belém em sentidos e misturas”, realizada entre 2007 e 2008 sob a coordenação da profª Drª. Wilma M. Leitão (FCS/UFPA), “Mercados Populares em Belém: sociabilidades, práticas e identidades ribeirinhas em espaço urbano”, realizada entre 2009 e 20011, e “Mercados interculturais: linguagens, práticas e identidades em contexto Amazônico”, iniciada em 2013, sob a coordenação da profª Drª. Carmem Izabel Rodrigues (PPGSA/UFPA) atestam o quanto esse fenômeno passou a ser problematizado e estudado nas Ciências Sociais.

[3] Levantamento realizado no contexto da pesquisa “Mercados interculturais: linguagens, práticas e identidades em contexto Amazônico” durante o segundo semestre de 2014. Foram aplicados questionários semiestruturados a uma amostra de 10% das cinco maiores da cidade, a saber: Ver-o-Peso, Guamá, Jurunas, São Brás e 25 de Setembro.

[4] O nome da feira faz referência ao antigo nome da via, que deixou de ser chamada de 25 de Setembro em 2010, para receber a designação de Rômulo Maiorana. (SOUSA, 2010)

[5] Informações levantadas durante a pesquisa de campo junto ao fiscal da SECON nessa feira.