IDENTIDADE QUILOMBOLA E TERRITORIALIDADE NA COMUNIDADE DE ALTO ALEGRE (CE)



Antonio Jeovane da Silva Ferreira
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira



Trajetória de Negro Cazuza. Fonte: ARQUA, 2017.

O presente texto traz à baila, de forma sucinta, os resultados finais alcançados a partir de uma pesquisa realizada no âmbito do curso de Bacharelado em Humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Pelo caráter interdisciplinar do referido curso, a presente pesquisa buscou compreender, sob um viés antropológico e na esteira da Antropologia das Populações Afro-Brasileiras, a trajetória histórica, a construção e as estratégias de fortalecimento da identidade, bem como a luta em defesa e reivindicação do território quilombola, a partir do olhar lançado sobre a comunidade de Alto Alegre, localizada no município de Horizonte, região metropolitana de Fortaleza/CE.

A justificativa para a escolha desta temática se deu em virtude de que, no Ceará, a presença e o reconhecimento da pluralidade étnico-racial, particularmente dos “remanescentes das comunidades dos quilombos” tal como categoriza a Constituição Federal de 1988, atravessa a historiografia local sendo esta nutrida por um discurso – ainda presente, porém exportado – da “ausência” negra, logo quilombola, o que fomentou por décadas a “invisibilidade” destes atores sociais, sobre o qual os estudos de Ratts (1997, 2005, 2009), lançaram luz.

No viés metodológico, para além do seu caráter etnográfico, compreendendo-o enquanto “uma experiência, uma experiência do Outro para captar e compreender, depois interpretar, a sua alteridade” (URIARTE, 2012, p. 07), nos servimos de entrevistas semiestruturadas principalmente com os “troncos velhos[1] de Alto Alegre, lideranças/diretores da Associação dos Remanescentes de Quilombos de Alto Alegre e Adjacências (ARQUA), entre outros atores sociais que maximizaram o encontro polifônico constituinte desta pesquisa.

Com isso, nosso objetivo central foi o de compreender como ocorria o processo de afirmação, reconhecimento e as estratégias de fortalecimento da identidade quilombola concomitantemente a luta em defesa e reivindicação do território étnico na comunidade de Alto Alegre em Horizonte/CE. Para alcançar este propósito estreitei diálogos com 9 interlocutores, além da participação em eventos e mobilizações de ordem comunitária, resultante de um trabalho de campo realizado entre abril a dezembro/2015 e setembro a dezembro/2016.

Tomando as questões postas como basilares para a realização desta pesquisa, privilegiamos no exercício de campo os diálogos com os troncos velhos de Alto Alegre (RODRIGUES, 2006), haja vista que por mais que estes estejam postos em um plano individual eles traçam uma “memória social, familiar e grupal” (BOSI, 1994, p. 37). Portanto, colocando-os em primeiro plano foi possível compreender aquilo que emicamente se designou como “a carrera de Alto Alegre”, ou seja, sua formação e trajetória histórica que circunscreve um trajeto coletivo delineando-se sobre o tripé do sofrimento, resistência e da ancestralidade conferida por Negro Cazuza, ancestral-fundador de Alto Alegre.

Sobre sua origem, os relatos de Manuel Vicente da Silva (Tio Vicente, 92 anos) e Cirino Agostinho da Silva (Tio Cirino, 89 anos – in memoriam) ambos bisnetos de Negro Cazuza, dão o tom histórico de sua gênese. Conforme ressaltou Tio Vicente, como é conhecido, seu bisavô não “vei daqui, ele vei da África […] pegaro a casco de cavalo […] amarraru e butaram logo dentro do navio e viajaru[2]. Este trajeto que perfaz os caminhos da escravidão africana no Ceará revela também a resistência negra, pois o trajeto preparado para Negro Cazuza não foi concluído exitosamente, haja vista que quando o navio chegou em Fortaleza, mais precisamente nas proximidades da Barra do Rio Ceará ele conseguiu fugir, pulando no mar e em seguida correndo embrenhou-se nas matas até chegar em uma localidade conhecida como “Saco” – hoje inexistente, mas identificada como pertencente a uma região próxima à comunidade.

No entanto, foi caçado, capturado “a dente de cachorro[3] e amarrado em um “pé de carnaúba” que por três dias foi açoitado até “amansar”. No terceiro dia conseguiu fugir, embrenhando-se em meio à mata onde encontrou uma aldeia indígena, a dos Paiacus em Buriti – Pacajus/CE.  Lá, casou-se com uma índia que “deu vida” a Alto Alegre – no sentido da formação dos primeiros troncos familiares.

Com a expansão destes troncos e vivendo sob um sentimento de coletividade comunitária passaram a configurar este território, mesmo embalados por períodos de secas, fome e doenças, passando a viver ali “tudo quetim” – simbolizando uma relação de certo isolamento social que passa por uma guinada brusca a partir dos anos de 1990-2000 com o crescimento industrial do município de Horizonte, e o fluxo migratório que por este é impulsionado, fazendo com que pessoas classificadas como “diferenciadas” e/ou “de fora” se estabeleçam nas proximidades e no interior do território.

Mediante agentes e pleitos exógenos e endógenos à comunidade, é a partir de 2002 que o movimento de afirmação da identidade quilombola e de reivindicação pelo reconhecimento junto ao Estado brasileiro ganha força, culminando com a expedição, por parte da Fundação Cultural Palmares, da certidão de autorreconhecimento que a certifica enquanto “remanescente das comunidades dos quilombos” em 24 de maio de 2005. Este é um marco fundamental para refletir a luta por um território ancestral que desde Cazuza é mantido geracionalmente e agora ressemantizado e convertido “em objeto de luta e mobilização política” (ARRUTI, 2008, p. 16).

As relações territoriais, como no caso de Alto Alegre, são bem específicas e atravessadas por disputas históricas que corroboraram para o cerceamento significativo de seu território, principalmente das áreas agricultáveis. Algumas destas disputas, por exemplo, são nitidamente expressas através da construção de obras hídricas[4] por parte do Governo do Estado – em período anterior ao seu efetivo reconhecimento – o que levou ao desmatamento de faixas significativas de vegetação nativa o que trouxe, além da privatização estatal da utilização do recurso hídrico que atravessa o território e que esta não é beneficiária direta, impactos sobre os meios de produção, das práticas etnomedicinais e da relação com o meio.

Portanto, o pleito de regularização territorial é moroso e implica diretamente sobre a vida cotidiana. Enquanto este processo não é concretizado por parte do Estado brasileiro, os Quilombolas de Alto Alegre (re)elaboram estratégias de fortalecimento de sua identidade, seja, por exemplo, através de projetos que potencializem a memória coletiva, como o “Chá de Memórias”, que dedica-se a incentivar o compartilhamento de histórias e seu cruzamento intergeracional, ou no reconhecimento da beleza quilombola como o “Desfile a Mais Bela Negra” que impacta na autoestima e no orgulho da beleza negra ou ainda na geração de renda intimamente vinculada a identidade quilombola por meio das “Bonequeiras”, título atribuído ao grupo de mulheres que confeccionam bonecas (de pano) negras, contribuindo para o fortalecimento da identidade tanto das mulheres como das crianças.

Por fim, diante deste panorama, concluímos que a trajetória histórico-social de Alto Alegre e seu reconhecimento enquanto sujeitos de direito, rompem, mesmo que paulatinamente, com a lógica histórica da “ausência negra” (RATTS, 2009) e ressignifica a história do Ceará, pois por mais que esta tenha negado e invisibilizado a sua presença e influência na formação do Ceará, os Quilombolas de Alto Alegre provam, através de sua história, luta e resistência cotidiana outro Ceará, portanto, afro-quilombola.

Referências bibliográficas

ARRUTI, José Maurício. 2008. Quilombos. In: Osmundo Pinho; Lívio Sansone (org.), Raça: Perspectivas Antropológicas. ABA / Ed. Unicamp / EDUFBA. pp. 312-350.

BOSI, Ecléa. 1994. Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras.

RATTS, A.J. P. 2009. Traços étnicos: espacialidades e culturas negras e indígenas. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

RODRIGUES, Vera. 2006. “De gente da Barragem” a “Quilombo da Anastácia”: um estudo antropológico sobre o processo de etnogênese em uma comunidade quilombola no município de Viamão/RS. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

URIARTE, Urpi. M. 2012. O que é fazer etnografia para os antropólogos. Ponto Urbe. Disponível em: http://journals.openedition.org/pontourbe/300. Acesso em: 07.09.2018


[1] O termo êmico “troncos velhos” surge a partir da pesquisa de Rodrigues (2006) sendo este recorrentemente utilizado pelos descendentes de Anastácia, fundadora do quilombo que leva seu nome, cujo significado está atrelado às referências feitas pelas gerações mais novas em relação aos mais velhos, assim como gerações anteriores.

[2] Entrevista realizada em 30 de outubro de 2016, em sua residência na comunidade de Base – Pacajus/CE.

[3] Tanto as expressões “a casco de cavalo” como “a dente de cachorro” fazem menção a um processo de dominação, não pacífico, que estes sujeitos, como no caso de Cazuza, sofreram ao serem capturados e inseridos na lógica escravista.

[4] Faço referência ao Canal do Trabalhador, uma obra do Governo do Estado do Ceará com início de construção por volta de 1993, cujo objetivo central é o de fazer a captação de águas do Rio Jaguaribe, até o açude de Pacajus, perpassando o açude Pacoti/Riachão. Já o Canal da Integração, também conhecido como “Eixão das Águas”, é um complexo hídrico que faz a transposição das águas do Açude Castanhão para abastecer a Região Metropolitana de Fortaleza.