O ENCONTRO EURO-MÉDIO ORIENTAL

Uma proposta de programa de pesquisa



Leonardo Schiocchet
Austrian Academy of Sciences, Institute for Social Anthropology


O chamado “Verão da Migração”, quando refugiados particularmente de origem médio-oriental chegaram na Europa a partir do verão de 2015, pôs em evidência o encontro assimétrico entre a Europa e o Oriente Médio. Uma parte da população europeia, especialmente europeus de origem médio-oriental e parte da esquerda política, mobilizaram um jargão sociopolítico evocativo da história de suas relações internacionais com o Oriente Médio, ressignificando assim a história europeia e suas relações com o Oriente Médio para explicar aquilo que muitos entenderam como uma crise. Atores sociais evocaram este encontro de formas diversas, empaticamente ou não, tornando este jargão fortemente polissêmico. Assim, depois do verão de 2015, o conhecimento sobre as migrações médio-orientais na Europa tornou-se imperativo para compreender como tais sujeitos se engajam com a Europa, como conectam esta região ao Oriente Médio, e como este encontro forma/é formado por processos sócio-históricos globais.

De fato, muitos projetos para pesquisa sobre refugiados médio-orientais na Europa emergiram depois do verão de 2015. Projetos sobre muçulmanos e árabes em geral também ganharam tração, motivados pela necessidade de sondar as “habilidades” dessas “comunidades” para se adaptar ou não à Europa. Dada a centralidade do contexto europeu e a ansiedade gerada pela chegada de um grande número de requerentes de asilo que em sua maioria eram de origem muçulmana, a maior parte destes projetos tem enfocado o que agentes estatais, assistentes sociais e acadêmicos tem chamado de “integração”.

Muito embora um pequeno contingente de competentes pesquisadores já explorasse este tópico na Europa antes do verão de 2015, o número de pesquisadores e projetos cresceu vertiginosamente a partir daquele período – a maioria desses projetos sendo propostos e conduzidos por acadêmicos com nenhuma ou muito pouca experiência nos campos de estudos sobre Oriente Médio, Islã e migração forçada. Muitos destes acadêmicos jamais pisaram no Oriente Médio, possuem pouca ou nenhuma experiência sobre suas populações, línguas, história e situações sociais fora da Europa. No entanto, muitos deles têm aparecido proeminentemente na mídia discutindo questões complexas de forma generalizada, evocando por exemplo “valores sírios”, “princípios islâmicos”, “organizações social árabe”, “mobilidade de refugiados”, entre outros. Alguns têm mesmo adquirido notabilidade mesmo em espaços eminentemente acadêmicos, tais como páginas da Web de instituições de ensino e pesquisa, relatórios ou publicações. Ainda que alguns destes estudos possuam seus méritos, em geral eles têm também contribuído para criar visões distorcidas de refugiados, médio-orientais e do Oriente Médio em si. Como resultado, práticas religiosas têm sido retratadas como muito mais normativas do que tendem a ser na prática, o uso de Smart Phones entre refugiados tem sido fetichizado e visões de mundo têm se tornado arbitrariamente distanciadas e exotizadas.

A maior parte destas visões distorcidas resultam de noções pré-concebidas que guiam questões de pesquisa e entrevistas e que prosperam em certos campos de pesquisa graça ao seu foco na questão atualmente em voga da “integração”. Este foco tem origem em questões levantadas pelo senso comum, pela mídia e por governos, motivadas seja por medo ou por uma genuína preocupação com o futuro de médio-orientais, muçulmanos e refugiados. Independentemente da motivação, tais questões frequentemente se encontram alienadas dos sujeitos para quem são dirigidas. 

Não vou abordar aqui o gênero mais radical de pesquisa em “securitização” estimulado pelo interesse em médio-orientais, refugiados ou não, tais como aquelas informando (ou em verdade sendo informados) por programas tais como o FRONTEX (programa da Agência Europeia de Fronteira e Guarda Costeira[1]), que apontam para a suposta necessidade de se investir na proteção de fronteiras europeias além-mar – por exemplo, na Turquia ou Tunísia. Também não me refiro aqui a programas de financiamento para pesquisa tais como alguns da Comissão Europeia que direcionam a pesquisa sobre refugiados para o estudo e desenvolvimento de tecnologia de vigilância. Refiro-me aqui apenas a certos tipos de pesquisa que buscam discutir se, por exemplo, refugiados afegãos são capazes ou não de “se integrar” à Alemanha ou se estão ou não de fato “integrados” (veja, por exemplo, Haller: 2019).

Integração é de fato um tópico importante, mas pesquisa sobre a integração de, por exemplo, árabes na Europa, deve necessariamente questionar o que é integração, quem está mobilizando esta ideia, e como tal mobilização afeta a estrutura da situação analisada, ao invés de providenciar um julgamento sobre, por exemplo, se iraquianos podem se tornar ou não húngaros zelosos. Além disso, tal pesquisa deve ser dirigida por especialistas em árabes e refugiados e não apenas em Europa e suas migrações. Ademais, a questão de refugiados médio-orientais na Europa não deve ser enquadrada primariamente como uma questão de religião, especialmente aquelas envolvendo a necessidade de se domesticar o islã e os muçulmanos de forma a que estes se adaptem, ou, como dizem, “se integrem” na Europa. Dito de outra forma, as pesquisas sobre refugiados não devem servir ao estabelecimento de uma lacuna religiosa incomensurável a priori, que precisa de uma “ponte” a qual em verdade apenas muçulmanos devem cruzar para chegar ao lado Europeu.

Em termos de aptidões acadêmicas, é essencial também que os pesquisadores que se aventurarem a discutir integração possuam competência cultural, social, política e linguística no mundo árabe e em migração forçada. Muitos dos árabes na Europa, incluindo refugiados, tiveram uma vida complexa antes de chegar à Europa, o que não especialistas frequentemente ignoram completamente ou reduzem a estereótipos, perdendo de vista as perspectivas de seus interlocutores e com estas algumas das questões mais importantes sobre o encontro Árabe-Europeu. Neste processo, vozes árabes são caladas e possibilidades de entendimento e política pública eficazes são fortemente limitadas. Finalmente, trabalho de campo, etnográfico ou não, entre refugiados e pessoas vulneráveis requer sensibilidade, responsabilidade, e um grupo de regras muito claras para evitar dano físico ou psicológico aos nossos interlocutores. Mas são muitos os institutos de ensino e pesquisa na Europa que não possuem experiência de pesquisa no Oriente Médio ou entre refugiados e que, no entanto, pesquisam refugiados médio-orientais neste continente, incluindo pesquisa entre menores de idade não acompanhados ou mesmo enviando estudantes de graduação para aprender métodos de pesquisa junto a essa população.

Assim, minha proposta é que evitemos os perigos da perspectiva da “integração” e as armadilhas da pesquisa não especializada nas ciências sociais em geral, e especialmente em antropologia, e que façamos isso mudando nossa perspectiva de análise para evitar a predeterminação dos nossos resultados de pesquisa ao enquadrar o encontro entre o Oriente Médio e a Europa através da lente do estado-nação, da governança, da política ou da segurança pública, ou ainda da assistência e da solidariedade. E é importante reiterar que o problema aqui não é ter estas perspectivas como objeto de análise, mas sim as ter como lentes com a quais acadêmicos focalizam tal encontro. Assim sendo, sugiro que é possível aglutinar muitas outras questões de pesquisa que apresentarei a seguir, e evitar a maior parte, senão todas as armadilhas da pesquisa sobre integração, em uma única perspectiva de pesquisa que eu chamo simplesmente de “perspectiva do encontro”, para evitar cunhar desnecessariamente mais um termo.

O encontro, neste caso entre médio-orientais (refugiados ou não) e o contexto europeu, não apaga a história dos sujeitos ou suas conexões empíricas e simbólicas entre a Europa e o Oriente Médio, tampouco restringe questões de pesquisa ao responder se médio-orientais podem se tornar culturalmente europeus, ou viver em um estado de direito nesta região. Ao invés disso, a perspectiva do encontro busca criar amplos entendimentos de representações, interações sociais, organizações sociais, cosmologias e práticas sociais tais como estas existem realmente, diferentemente de noções preconcebidas que geram pontos-cegos sobre a estrutura mais ampla do encontro. Para usar uma metáfora médica, esta perspectiva seria equivalente a produzir um diagnóstico geral antes de definir os termos de uma intervenção. Assim, esta perspectiva possui grande potencial para contribuir para o estudo de migrações médio-orientais (em oposição a estudos de comunidade, por exemplo), para a antropologia da (i)mobilidade, e para a conexão entre antropologia da migração e da migração forçada, já que esta gera um panorama compreensivo mas matizado da situação social analisada, necessário para a compreensão de questões antropológicas profundas sobre a natureza de interações sociais, identidade, pertencimento social, entre outras.   

Deste modo, além de questionar o que é integração ao colocar em perspectiva o termo em si, devemos também ter em mente que existem outras questões estruturais, ao menos tão impreteríveis quanto aquelas levantadas para perspectiva da integração, que deveríamos estar discutindo. Em outras palavras, é necessário, por exemplo, estudarmos os efeitos da intervenção humanitária sobre refugiados médio-orientais, mas também é necessário que estudemos este encontro para além do contorno do discurso humanitário em si – ou seja, questionando sua formação, mobilização e manutenção – de forma a esboçar um panorama mais inclusivo da situação social analisada, e mesmo para compreender a intervenção humanitária ela mesma antropologicamente. Julgo que isso não é novo para antropólogos, ainda que muitos dentre nós tenham continuamente insistido em abordar “integração” sem mesmo colocar este conceito em perspectiva. Assim, ao invés de determinar se iranianos podem se tornar britânicos, se iraquianos são muito fundamentalistas ou extremistas para a França, ou se afegãos podem viver de acordo com as disposições do estado de direito na Áustria, a perspectiva do encontro enfoca, por exemplo:

 Como comunidades médio-orientais em um dado lugar na Europa mobilizam concepções, valores e práticas sociais para se engajar com um dado contexto, e como este contexto, por outro lado, se relaciona com este engajamento. Concomitantemente, como este contexto sócio-histórico particular têm influenciado e moldado as vidas de médio-orientais ou não.

Buscando criar um amplo entendimento de representações, interações sociais, organizações sociais e visões de mundo tais como eles efetivamente são, ao invés de como eles deveriam idealmente ser. Isto, por outro lado, deve levar a um entendimento mais matizado sobre a forma como comunidades e grupos de médio-orientais na Europa têm engajado e influenciado transformações sociais e políticas na Europa e além.

Como experiências de deslocamento forçado, tão proeminentes nas experiências de migrantes forçados, devem nos levar a contrastar mobilidade geográfica com a experiência de imobilidade. E como tal contraste pode ser útil para explorar outras experiências de migração para além daquelas de fuga e refúgio. Isto é, antropólogos têm há muito tempo notado que a distinção entre migração e migração forçada é na prática um tanto quanto arbitrária, já que emigrantes são forçados a se deslocar, se não por medo de morte ou perseguição, então por obrigações ou restrições sociais, e violência ou pobreza estruturais, tal como pesquisa entre médio-orientais na Áustria sugere (Schiocchet 2017b; Rasuly-Paleczek 2017).

A situação contemporânea contextual de diferentes regiões e populações do Oriente Médio em si, e como grupos sociais lá (sejam eles étnicos, religiosos, nacionais ou outros) foram formados, transformados, e mantidos por efeito de guerras, violência e deslocamento forçado.

A análise do fluxo de visões de mundo, práticas sociais, e pessoas passando por redes transnacionais envolvendo médio-orientais e europeus, enquanto determinando seu escopo, lugar e representatividade relativos nos contextos europeus e médio-orientais. Quer dizer, entender como a Europa é inscrita na dinâmica de tais fluxos. Ao fazer isso, as pesquisas enfocando este tópico considerariam processos de pertencimento social e formas de organização sociais tanto na Europa quanto fora dela.  

Esta não é uma lista exaustiva, mas ilustra as possibilidades de pesquisa para além da camisa de força que representa a perspectiva da integração. O que apresentei aqui deve ser assim entendido como um programa de pesquisa, um convite àqueles interessados em um debate muito mais amplo e significativo sobre a complexidade do presente capítulo do encontro Euro-médio-oriental, e encontros similares para além dos contornos da Europa e do Oriente Médio, tais como os que ocorrem nos contextos Latino-Americanos.  

Paper apresentado antes em inglês em uma plenária da comissão para a Antropologia do Oriente Médio na reunião da IUAES em Florianópolis em Julho de 2018 e depois pela primeira vez em português no evento comemorativo dos 15 anos do Núcleo de Pesquisas sobre o Oriente Médio (NEOM) da UFF em Dezembro de 2018.

Referências bibliográficas

HALLER, Max (ed.). 2019. Migration und Integration: Fakten oder Mythen? Vienna: ÖAW Press.

SCHIOCCHET, Leonardo. 2017. Integration and Encounter in Humanitarian Tutelage. In KOHLBACHER, Josef and SCHIOCCHET, Leonardo (Eds.). From Destination to Integration: Afghan, Syrian and Iraqi Refugees in Vienna, pp.9-35. Vienna: Austrian Academy of Sciences Press.

RASULY-PALECZEK. Gabriele. 2017. Many Reasons for Leaving Afghanistan: Social Obligations in Times of Protracted Violence. In  KOHLBACHER, Josef and SCHIOCCHET, Leonardo (Eds.), pp.9-35. From Destination to Integration: Afghan, Syrian and Iraqi Refugees in Vienna, pp.57-82. Vienna: Austrian Academy of Sciences Press.


[1] https://europa.eu/european-union/about-eu/agencies/frontex_en