A SOMBRA DA IMAGEM

Comentário ao ensaio fotográfico de 
Marcus Vinícius Nascimento Negrão


Carolina Junqueira dos Santos
Universidade de São Paulo


Adentramos a sombra fotográfica de encontro a dois corpos, dois meninos. Eles portam baldes e ferramentas, riem deliciosamente ao lado do túmulo, diante de um muro marcado pelo tempo. Flores de plástico presas à cruz, cruz que se sobrepõe a uma outra cruz, com mais flores trançadas em sua materialidade que não acaba, que não morre, que se perpetua como imagem para que o vínculo entre vivo e morto não se desfaça.

Logo depois, também dois corpos, dois homens. Com seus braços e ferramentas, demarcando espaço, demarcando as fronteiras que separam os seus corpos do corpo morto, o vivo estabelecendo limites, mas, com o mesmo gesto, fazendo se aproximar o ausente, aquele que está à margem, tornado presente pelo corpo vivo.

Mãos, gestos. O que vejo nessas fotografias é o corpo do vivo, corpo que estabelece um novo lugar para o morto, que lhe produz um novo corpo – feito de pedra, cimento, cruz, velas, flores –, que lhe demarca um lugar, aqui jaz, aqui está, aqui permanece, aqui me coloco diante dele, para que permaneçamos juntos, em contato, presentes um para o outro. Cuidar do túmulo é cuidar do corpo, do elo amoroso. Vejo as mãos, muitas mãos, vejo velas, vejo flores, vejo areia, cimento, vejo a luz, vejo a escuridão, os rostos, mas sobretudo as mãos.

Iluminar os mortos é lançar a sombra aos vivos, deixar que caia a noite, que o vivo se apague no corpo escuro do mundo, para abrir espaço ao invisível, ao não-corporificável, ao não-localizável, fazer do corpo vivo uma escuridão para acender o morto, para evocá-lo em sua matéria afetiva e intangível.

Na última imagem, dois corpos de mulheres. Corpos feitos de sombra, iluminados pela luz que emana do morto. Elas sorriem, docemente, e olham em direção àquilo que não se dá a ver. Arrumar, iluminar, confraternizar. Assombrados, os corpos dos vivos se fazem presente.